Luz para a inteligência, Calor para a vontade

domingo, 25 de setembro de 2016

Freud: "Pacientes são lixo"

- Artigo de Ricardo Hashimoto
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No dia 23 de setembro de 1939, Sigmund Freud prestou contas a Deus. A julgar pelos seus detratores, a conversa foi longa.
Quando o assunto é Freud, a conversa logo pega fogo. Louvado por seus admiradores como gênio e demonizado por quem dele discorda, o criador da psicanálise tem como maior mérito despertar paixões e confusões. "Falem mal mas falem de mim".
O mais famoso vídeo do mais famoso intelectual brasileiro – Gilberto Freyre – foi gravado no Colégio Freudiano do Rio de Janeiro durante o 2o. Congresso Brasileiro da Psicanálise d’A Causa Freudiana do Brasil, em 1985. Palavras iniciais de Freyre: “Creio poder considerar-me um dos veteranos da aplicação da perspectiva psicanalítica a uma reinterpretação da formação social do Brasil.”
Por outro lado, escreveu Olavo de Carvalho no artigo Pior para os fatos: “Marxismo, pragmatismo, nietzscheanismo e freudismo nada nos dizem a respeito da realidade, mas tudo a respeito da mentalidade de seus adeptos. São os quatro pilares do barbarismo contemporâneo.”
Face à divergência mostrada por esses monstros da intelectualidade brasileira – e, para o nosso orgulho, mundial – eu logo me coloquei no meu cantinho e, desistido de tão altos assuntos, continuei buscando a compreensão do nosso tempo nos livros de História. E eis que o homem veio, sozinho, até mim.
Estava lendo Libido Dominandi – expressão de Santo Agostinho -, livro de E. Michael Jones, quando Freud apareceu no capítulo Zürich, 1914. O livro mostra como sexo e controle social estão profundamente unidos. No citado capítulo, Freud, Jung e a família Rockefeller aparecem num verdadeiro barraco ocasionado por grana. Escreve E. Michael Jones:
Freud havia dito várias vezes que os americanos só eram bons para uma coisa: dinheiro; e agora o discípulo se mostrava superior ao mestre na exploração de americanos ricos para ganho financeiro. Freud não era estranho à idéia de explorar seus pacientes visando ganho financeiro. “Freud,” de acordo com Peter Swales,
tinha na psicoterapia algumas das mulheres mais ricas do mundo. No dia 1 de agosto de 1890, ele escreveu para Wilhelm Fliess, declinando um convite para visitá-lo em Berlim e certamente ele estava aludindo a Anna von Leiben, a quem apelidou de “prima-dona” ao explicar “Minha principal cliente está passando agora por um tipo de crise nervosa e durante a minha ausência pode ser que ela fique boa.” [ênfase minha]
Freud tinha medo que a sua paciente “pudesse ficar boa” durante a ausência dele. Uma atitude curiosa para um médico. A atitude, entretanto, não é curiosa se a psicanálise nada mais é do que controle psíquico cripto-iluminista. Dizer que Freud estava envolvido com a medicina mascara a sua real intenção. Pacientes, disse Freud a Ferenczi no fim da vida, eram “lixo”, “bons apenas para tirar dinheiro deles e para matéria de estudo, certamente, nós não podemos ajudá-los”; a psicanálise como terapia, concluiu Freud, “pode ser inútil”.
Fim da citação.
Compre o livro, leia com os seus próprios olhos e vá às fontes. Está tudo documentado lá.
Isso põe fim à confusão. Ou, como diria o já citado Santo Agostinho:
– Causa finita est.

(Fonte: MSM)

terça-feira, 20 de setembro de 2016

O Multiverso: 1895-2012. Descanse em paz.

- Texto de Robin Shumacher

O último deus dos ateístas, o multiverso, foi aposentado em janeiro de 2012 em um evento deveras inusitado: a celebração do 70ᵒ aniversário de Stephen Hawking, em Cambridge. Com a palavra estava o Dr. Alexander Vilenkin, autor de um artigo apresentado no encontro “Estado do Universo”, de cientistas que se reuniam para honrar Hawking.
Depois de demonstrar as falácias de várias teorias que tentavam validar o multiverso, Vilenkin resumiu a sua conclusão dizendo: “Toda a evidência que nós temos diz que o universo teve um começo.” Isso, naturalmente, deixou todos os naturalistas filosóficos e ateístas de luto, porque o próprio Hawking tinha admitido: “Muitas pessoas não gostam da ideia de que o tempo tenha um começo, provavelmente porque isso sugere a intervenção divina.”
Para os que não estão familiarizados com a ideia do multiverso, a teoria do universo múltiplo postulava a existência simultânea de muitos (possivelmente infinitamente muitos) universos paralelos, na qual quase qualquer coisa teoricamente possível seria realizada no fim das contas. O multiverso era usado por materialistas e ateístas como uma forma de evitar o argumento cosmológico e o argumento do ajuste fino para a existência de Deus.
Sobre o ajuste fino do universo, o físico Andrei Linde disse: “Nós temos um monte de coincidências muito, muito estranhas, e todas essas coincidências são de uma forma tal que elas tornam a vida possível.” Linde fez essa declaração em um artigo da Discover de 2008 e adicionou que a teoria do multiverso era uma possibilidade muito sedutora para explicar a questão do ajuste fino do universo, que permite a vida na terra.
Vilenkin, um dos parceiros e colegas de trabalho de Linde, acabou de fechar a porta dessa possibilidade.
Ainda antes da explicação de Vilenkin, a teoria do multiverso sofria um monte de pancadas debilitadoras, antes da sua morte em 2012. O multiverso sempre teve o problema filosófico da regressão infinita. Tal problema não está limitado ao nosso universo, ele vale para toda a realidade. Você ainda precisa voltar até uma causa primária – uma causa não-causada de todas as coisas – e isso inclui o multiverso.
Cientificamente falando, nenhuma evidência foi fornecida para essa teoria. De fato, nunca houve um modelo com alguma evidência mostrando alguma realidade que se estenda infinitamente no passado. Mas, surpreendentemente, muitos naturalistas filosóficos e ateístas aclamam o multiverso quase como um deus – descrevendo a sua beleza, o seu poder, etc., com absolutamente nenhuma prova de que tal coisa já tenha existido. Uma postura certamente estranha para eles que constantemente criticam os crentes em Deus pela “fé” em uma coisa que (supostamente) não tem provas de existência.
Antes desse último artigo, Vilenkin, Arvind Borde e Alan Guth mostraram que há evidências científicas sólidas contra o multiverso. Juntos, eles demonstraram que qualquer universo que esteja se expandindo ao longo da história não pode ser infinito no passado, mas deve ter uma fronteira espaço-temporal.
O que torna essa prova tão poderosa é que ela se sustenta não importa a descrição física do universo. O teorema de Borde-Guth-Vilenkin não depende da descrição física da origem do universo. Esse teorema implica que, ainda que o nosso universo seja uma minúscula parte de um multiverso composto de muitos universos, o multiverso deve ter um começo absoluto.
Em outras palavras, a preocupação de Hawking sobre a necessidade de um pontapé inicial para o nosso universo não foi riscada. Deve ser por isso que Hawking deixou uma mensagem de telefone gravada para o evento, que dizia: “Um ponto de criação seria um lugar onde a ciência quebraria. Você teria que apelar para a religião e para a mão de Deus.”
O último artigo de Vilenkin derruba as três opões possíveis do multiverso e ele está de acordo com as suas colocações anteriores, que incluíam a seguinte: “Diz-se que um argumento convence homens racionais e uma prova convence até mesmo os homens irracionais. Com essa prova apresentada, os cosmologistas não podem mais se esconder atrás da possibilidade de um universo eterno no passado. Não há saída, eles têm de encarar o problema de um começo cósmico.”
Você pode ler mais sobre as descobertas de Vilenkin em um artigo de Lisa Grossman intitulado “Por que cientistas não podem evitar o evento da criação”, que é a matéria de 11 de janeiro de 2012 da revista New Scientist.
Com a partida do último deus dos ateístas, o multiverso, é difícil não pensar sobre o que a filosofia chama de “afogar o peixe”. Quando os materialistas ou ateístas propõem espontâneos ou auto-criados universos, multiversos, hipóteses da mecânica quântica e outras dessas coisas para tentar explicar a realidade sem Deus, eles usam toda a água do oceano para tentar afogar o animal (Deus), mas no fim das contas, o peixe continua lá afirmando a sua existência e a sua presença.
John Lennox resume essa cômica situação dessa forma: “É uma grande ironia que no século XVI algumas pessoas resistiram aos avanços da ciência porque eles pareciam ameaçar crença em Deus, e agora no século XX as ideias científicas do começo cósmico enfrentam resistência porque elas ameaçam aumentar a plausibilidade da crença em Deus.”
Por que o nosso universo está aqui e é tão precisamente ajustado para a vida? Por que ele é, como alguns cientistas admitem, como uma escultura polida? Santo Agostinho dá a resposta: 


“Do nada tu fizeste o céu e a terra – uma coisa grande e uma pequena – porque tu és o Deus Todo Poderoso, para fazer todas as coisas boas, até mesmo o céu grande e a terra pequena. Foste tu, do nada tu fizeste o céu e a terra.”




Original: The Multiverse: 1895 – 2012. R.I.P. , em http://www.blogos.org/compellingtruth/multiverse.html

Tradução: Alfredo Barbosa

(Fonte: MSM)

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A Volkswagen e os softwares fraudulentos

- Artigo de Bruce Shneier
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Durante os seis últimos anos, a Volkswagen fraudou testes de emissão de poluentes dos seus carros movidos a diesel. Os computadores dos veículos conseguiam detectar quando estavam sob teste e alteravam temporariamente o comportamento dos motores para que parecessem muito menos poluentes do que realmente eram. Quando não estavam sob análise, vomitavam 40 vezes mais poluentes. O CEO da Volkswagen renunciou e a empresa enfrentará um recall caro, multas enormes e coisa pior.
Fraudes de testes regulatórios têm um longo histórico na América corporativa. Isso acontece regularmenteno controle de emissões dos automóveis e em outras situações. O que é importante no caso VW é que a fraude estava pré-programada no algoritmo que controlava as emissões dos carros.
Computadores permitem às pessoas fraudar de modo inédito. Como a fraude fica encapsulada no software, as ações maliciosas podem ocorrer muito longe do teste em si. Como o software é “inteligente” de um modo que outros objetos não são, a fraude pode ser mais sútil e mais difícil de detectar.
Nós já tivemos exemplos de fabricantes de smartphones fraudando testes de benchmark de processadores: detectavam quando estavam sob análise e aumentavam artificialmente o desempenho. Logo veremos isso em outros ramos da indústria. (NT: benchmark é um ponto de referência em relação ao qual computadores ou programas podem ser medidos em testes de comparação de desempenho, confiabilidade etc.)
A Internet das Coisas está chegando. Muitas indústrias estão se movimentando para colocar computadores em seus dispositivos e isso dará aos fabricantes novas oportunidades para praticarem fraudes. Lâmpadas poderão burlar os padrões regulatórios parecendo ter mais eficiência energética do que realmente têm. Sensores de temperatura poderão enganar os compradores fazendo-os acreditar que a comida está acondicionada em uma temperatura mais segura do que a real. Urnas eletrônicas poderão parecer funcionar perfeitamente – exceto durante a primeira terça-feira de novembro quando imperceptivelmente transferirão uma pequena porcentagem de votos de um candidato para outro. (NT: a primeira terça-feria de novembro é a data das eleições nacionais americanas – Congresso a cada 2 anos e Presidente a cada 4 anos.)
A minha preocupação é que alguns executivos não interpretarão o episódio da VW como um aviso envolvendo penas justas para um grande erro mas, ao contrário, o verão como uma demonstração de que você pode conseguir fazer uma coisa dessas por seis anos.
E eles trapacearão com mais esperteza. Para todos os envolvidos na ousadia, a fraude da VW era óbvia caso as pessoas soubessem procurá-la. Mais inteligente teria sido fazer a fraude parecer um acidente. A qualidade geral dos softwares é tão ruim que produtos são entregues com milhares de erros de programação.
Muitos deles não afetam as operações normais, motivo pelo qual o software da sua máquina geralmente funciona relativamente bem. Alguns desses erros, entretanto, afetam as operações, e por isso o software ocasionalmente falha e requer atualizações constantes. Ao fazer um software fraudulento parecer conter um erro de programação, a fraude parece um acidente. E, infelizmente, este tipo de fraude que se pode negar é mais comum do que se pensa.
Especialistas em segurança computacional acreditam que as agências de inteligência têm feito este tipo de coisa por anos, com o consentimento dos desenvolvedores de software e de maneira secreta.
Esse problema não será resolvido por meio da segurança computacional como normalmente a entendemos. A segurança computacional convencional é projetada para impedir a invasão de computadores e redes por hackers. A analogia com carros seria uma segurança de software que impedisse que o dono pudesse adaptar o motor do seu veículo para correr mais, gerando, por outro lado, uma maior emissão de poluentes. O que precisamos combater é uma ameaça bem diferente: um comportamento condenável programado na fase de projeto.
Nós já sabemos como proteger a nós mesmos contra o comportamento condenável das corporações. Ronald Reagan uma vez disse “confie, mas verifique” falando sobre a dissimulação da União Soviética nos tratados nucleares. Precisamos ter a capacidade de verificar o software que controla as nossas vidas.
A verificação de software tem duas partes: transparência e supervisão. Transparência significa disponibilizar o código-fonte para análise. A necessidade disso é óbvia; é muito mais fácil esconder um software fraudulento se o fabricante puder esconder o código.
Mas a transparência não diminui a fraude nem melhora a qualidade do software magicamente, como qualquer pessoa que usa software de código aberto sabe. É apenas o primeiro passo. O código precisa ser analisado. E, como software é tão complicado, essa análise não pode ficar limitada a um teste governamental de vez em quando. Precisamos também de uma análise privada.
Foram pesquisadores de laboratórios privados nos Estados Unidos e na Alemanha que enquadraram a Volkswagen. Assim, transparência não significa tornar o código disponível apenas para o governo e seus representantes; transparência significa tornar o código disponível para todos.
Transparência e supervisão estão sob ameaça no mundo do software. As empresas normalmente lutam contra tornar o seu código público e tentam calar os pesquisadores de segurança que encontram problemas, citando a natureza proprietária do software. (NT: software proprietário é aquele em que o código-fonte não é disponibilizado.) É uma queixa válida, mas o interesse público de exatidão e segurança precisa se sobrepor aos interesses dos negócios.
Cada vez mais, software proprietário está sendo usado em aplicações críticas: urnas eletrônicas, dispositivos médicos, bafômetros, distribuição de energia elétrica, sistemas que decidem se alguém pode ou não embarcar num avião. Estamos cedendo mais controle das nossas vidas a softwares e algoritmos. Transparência é a única forma de verificar se eles não estão nos enganando.
Não faltam executivos dispostos a mentir e a fraudar em sua caminhada em direção aos lucros. Vimos outro exemplo semana passada: Stewart Parnell, ex-CEO da agora extinta Peanut Corporation of America, foi condenado a 28 anos de prisão por comercializar deliberadamente produtos contamidados por salmonella. Pode parecer excessivo, mas nove pessoas morreram e muitos mais adoeceram devido à sua fraude.
Software somente tornará uma má conduta como essa mais fácil de perpretar e mais difícil de provar. Menos gente precisará saber sobre a conspiração. Isso pode ser feito de antemão, longe do local ou da ocasião do teste. E, se o software permanecer escondido por um tempo longo o suficiente, facilmente pode ser o caso de que ninguém na companhia se lembre de que ele está lá.
Precisamos de uma melhor verificação dos softwares que controlam as nossas vidas e isso significa mais – e mais pública – transparência.

Este ensaio foi publicado originalmente na CNN.com
Tradução feita a partir do post Volkswagen and Cheating Software.


Bruce Schneier é especialista em tecnologia internacionalmente renomado, chamado de “guru da segurança” pelo The Economist. É autor de 13 livros – incluindo Data and Goliath: The Hidden Battles to Collect Your Data and Control Your World – e centenas de artigos, ensaios e dissertações acadêmicas. Prestou declarações ao Congresso, é presença frequente em programas de rádio e tv, tem servido em diversos comitês governamentais e é citado regularmente na imprensa. A sua newsletter Crypto-Gram e o seu blog Schneier on Security são lidos por mais de 250 mil pessoas. É fellow do Berkman Center for Internet and Society na Harward Law School, do Open Technology Institute da New America Foundation, membro da Electronic Frontier Foundation, do Electronic Privacy Information Center e é Chief Technology Officer da Resilient Systems, Inc.



Tradução: Ricardo R Hashimoto

(Fonte: MSM)

domingo, 18 de setembro de 2016

A ambição filosófica

- Artigo de Olavo de Carvalho -



Não existe filosofia modesta. Toda filosofia é uma intervenção de longo prazo e larga escala no mundo dos acontecimentos humanos. Enquanto os decretos dos governantes passam e se desfazem em pó no esquecimento, as filosofias permanecem ativas e influentes decorridos séculos ou milênios do falecimento dos seus criadores, afetando ou modelando o curso das discussões científicas, morais, políticas e religiosas. Revelam, nisso, uma força auto-revigorante quase miraculosa. Milhares de biografias de Napoleão e Júlio César não trariam de volta os seus impérios, mas às vezes basta um debate erudito ou um ensaio de reinterpretação para que uma filosofia que parecia esquecida ressurja das cinzas e, adornada ou não do prefixo “neo”, venha interferir na vida contemporânea como se tivesse sido publicada ontem.

Não imaginem que esse fenômeno se deva somenteao zelo de admiradores e discípulos tardios que, à revelia e sem a mínima participação de seus mestres e inspiradores mortos, não deixam que a chama se apague. Ao contrário, foram esses mestres e inspiradores mesmos que, concebendo metas de longo prazo e colocando a serviço delas as mais complexas e poderosas estratégias cognitivas, deixaram aberta ou fomentaram conscientemente a possibilidade de sucessivos renascimentos.


Em algumas filosofias a meta ambicionada é tão evidente que não precisa nem ser declarada. Ninguém pode duvidar de que Sto. Agostinho, Sto. Tomás ou Pascal sonhavam em expandir o domínio hegemônico da Igreja Católica e converter, se possível, a humanidade inteira. Isso transparece em cada linha que escreveram. Os três divergem somente nas estratégias intelectuais com que planejam realizar esse objetivo, as quais escapam ao assunto deste artigo.

Em outros casos – Marx, por exemplo, ou Nietzsche --, o objetivo é tão enfaticamente reiterado que basta citar esses nomes para que venha imediatamente à memória do público a imagem da utopia socialista ou a do Super-Homem que emerge soberanamente livre no deserto do nada após a destruição de todos os valores.


Porém mais interessante é o caso daqueles filósofos que sussurram seus objetivos tão discretamente, quase em segredo, que estes podem passar despercebidos ou ser negligenciados durante décadas ou séculos por estudiosos que nada mais vêem nas obras deles senão a poderosa arquitetura dos meios, chegando a tomá-la como se fosse o fim.


A mais mínima hesitação do filósofo em colocar a declaração de fins bem visível no pórtico ou no topo da sua filosofia pode levar a esse resultado. Porque os fins, em si mesmos, são por assim dizer anteriores à filosofia e, determinando-lhe a forma de conjunto, não são por ela afetados exceto no que diz respeito aos seus meios de realização. Os fins de uma filosofia não são exclusivos dela: podem ser compartilhados por uma multidão de não-filósofos que talvez nem tenham o vigor intelectual necessário para compreendê-la. O exemplo mais didático, nesse sentido, é o já citado de Agostinho, Tomás e Pascal. Eles queriam expandir o cristianismo? Sim. É esse o objetivo que norteia todo o seu esforço filosófico? Sim. Mas quantos homens não queriam o mesmo sem ser filósofos?


O que caracteriza e distingue a filosofia no meio de tantos outros empreendimentos humanos é a peculiar sofisticação, riqueza e precisão dos meios intelectuais que ela põe a serviço do seu projeto. Enquanto outros pregam os fins e tentam realizá-los na prática ou morrem por eles no campo de batalha, o filósofo se empenha em remover os mais árduos obstáculos cognitivos que se interpõem entre a humanidade presente e a consecução desses fins, erguendo novos arcabouços intelectuais que a viabilizem. Esses obstáculos podem consistir de crenças do senso comum, erros de percepção ou de raciocínio, doutrinas religiosas, científicas ou mesmo filosóficas equivocadas, símbolos inadequados ou mal interpretados que bloqueiam a imaginação, fraquezas da psique humana etc. etc.


Josiah Royce distinguia, com razão, entre o “espírito” de uma filosofia e a sua “realização técnica” – o ideal inspirador e a forma acabada da sua cristalização em obra filosófica. Tão ampla é a esfera dos problemas envolvidos na “realização técnica”, tão árdua a tarefa de resolvê-los, tão complexo o equipamento intelectual que tem de ser usado (e às vezes criado) na sua construção, e não raro tão dificultosa a sua absorção pelo leitor, que, se não advertido quanto aos fins e ideais subjacentes, este pode prolongar o exame da maquinaria indefinidamente até o ponto de tomá-la como se ela fosse a finalidade de si mesma. Sem contar, é claro, o prazer vaidoso que o pedantismo erudito pode extrair do destrinchamento interminável de miudezas técnicas, em que as questões fundamentais são adiadas para o dia de são nunca em nome de uma aparência de “rigor”. Para piorar as coisas, muitos elementos da “realização técnica” têm mesmo um valor autônomo, que permite integrá-los em outros projetos filosóficos alheios ou hostis aos fins originários a que serviram. Não é preciso ser tomista nem marxista para tirar proveito de parcelas inteiras do tomismo ou do marxismo.


É claro, no fim das contas, que o desvio de foco se comete menos facilmente com os filósofos que declararam abertamente os seus fins, ou com aqueles onde estes são auto-evidentes, do que com os tipos ambíguos e escorregadios que, por medo do escândalo ou por aversão a polêmicas, preferiram ser mais discretos ou obscuros.


Cometem-se menos desatinos por fuga do essencial na interpretação de Marx, de Sto. Tomás de Aquino ou de Pascal que na de Maquiavel, Kant ou Descartes.


(Fonte: MSM)

sábado, 17 de setembro de 2016

A imaginação

- Texto de Nilson José Machado -

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I – A lagartixa e o jacaré
Há um quadro de Magritte que representa a capacidade de extrapolar a partir de um contexto: o artista é capaz de ver um ovo e pintar uma ave.
Há um poema de Blake que nos fala de “ver o mundo em um grão de areia e todo o céu em uma flor selvagem, em ter o infinito na palma da mão e a eternidade em uma hora”. Também aqui, as capacidades de articulação micro/macro, de combinação análise/síntese são especialmente valorizadas.
Tanto a relação contexto/extrapolação quanto a capacidade de uma visão sintética, de uma cartografia simbólica do real, exigem, no entanto, os cuidados do tempero, ou de um grão de sal.
Uma lagartixa imóvel em um muro nos faz lembrar de Blake e Magritte. A imaginação pode nos levar do pequeno réptil ao enorme jacaré, tal como uma miniatura metálica nos faz pensar no automóvel real. Mas temer a lagartixa como se teme um jacaré não é virtude da imaginação; pode ser simples paranóia.
Falar em público e viajar de avião, às vezes, são lagartixas disfarçadas de jacarés.
II – Ilusão e futuro
Ter ilusões é querer jogar o jogo da vida. As ilusões inspiram e alimentam nossos projetos e nos lançam para frente. Ter ilusões é sonhar com metas, que se descolam dos fatos e tangenciam a ficção; mas é também projetar ações para animá-las.
Sem ilusões, não casamos, não temos filhos, nem nos tornamos professores: a docência pressupõe a fundamental ilusão pelo outro. A consciência dos riscos, inerentes a todos os projetos, deve apenas temperar a expectativa da realização, nunca minar a ilusão. O espaço do risco é o mesmo da realização pessoal, da criação.
O futuro é tecido pelos projetos que arquitetamos e eles são tributários de nossas ilusões: sem ilusões, não existe o futuro. A fecundidade da ilusão, no entanto, é sutil e delicada. Quando um evento crucial nos faz entrar em crise ou duvidar do sentido da vida, sustentamo-nos nos projetos que já realizamos e não nas ilusões que um dia já tivemos. Não vivemos sem ilusões, mas não vivemos de ilusões. Viver é sonhar, projetar, realizar.
III – Ilusão e saudade
A vida é como uma narrativa em permanente construção. Ela se realiza nos projetos que delineamos no presente, mas se alimenta continuamente do passado e do futuro. Alertados de que o modo de ser do ser humano é o pretender ser, é o projetar, é a futurição, saudamos Marías e Ortega e semeamos no presente as sementes do futuro. Conscientes de que o presente não se sustenta sem a memória, sem a história, voltamo-nos constantemente para trás, como condição de possibilidade de um projeto consistente: o presente é o futuro do passado.
No passado, no entanto, nem tudo nos agrada. Em auto-tela de retro-projeção, buscamos redesenhá-lo. Em nome do encantamento do presente, supervalorizamos ocorrências circunstanciais e episódicas. Para expressar tal cumplicidade radical entre o vivido e o imaginado, a língua portuguesa dispõe de uma palavra especial: saudade. Uma sincera tolerância com o passado é a mãe de todas as saudades. Pouco importa se a versão é ilusória: a saudade é uma ilusão do passado.
IV – Os factos e os fictos
O modo de ser do ser humano é pretender ser, como bem caracterizou Julián Marías. Quem não está se lançando em busca de coisa alguma, quem não tem qualquer projeto (pro jactum = jato para frente) já faleceu, mesmo que não saiba disso.
Habitamos o espaço entre a realidade dos fatos e nossas fantasias mais diletas. Facto é o particípio passado do verbo latino facere (fazer). Os fatos já estão feitos. Não podemos ignorá-los, mas reduzir a vida a eles é limitar nossas perspectivas.
O vivido alimenta-se do imaginado, do que fazemos de conta, dos fictos. Sonhos, ilusões, fantasias, utopias, ficções são alimentos para nossos projetos. Ter ilusões é querer continuar jogando o jogo da vida. Iludere vem de ludus, jogo. Não vivemos de ilusões, mas não sobrevivemos sem elas. Sem ilusão não se faz projeto. Os fictos que idealizamos prefiguram os factos que vivenciamos.
A ficção é fundamental para a vida. Em qualquer idade, sem a simbiose realidade/ficção, a vida humana descamba em mero fatalismo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Introdução e Generalidades da Mecânica Quântica

* Aula real da graduação em Física

Potências de base 10

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POTÊNCIA DE BASE 10

(Fonte: http://fisicamariaines.com/mat-pot.html)

Potências de base 10 são um tipo de notação científica. São muito úteis em cálculos que envolvem números que representam grandezas muito grandes ou grandezas muito pequenas.
Por exemplo, se tivermos que multiplicar o número 0,0005 (cinco décimos de milésimo) por 40000000 (40 milhões), corremos maior risco de nos enganarmos no cálculo do que se fizermos uso, dos mesmos valores, expressos em potências de base 10.
Assim: 5 x 10-4 . 4 x 107 = 20 x 103 = 2 x 10 4 = 20000
que representa 0,0005 . 40000000 = 20000
pois
0,0005 = 5 x 10-4
40000000 = 4 x 107
NOTA: Para escrever um número qualquer, na potência de base 10, desloque a vírgula do número até que esta fique numa única casa decimal diferente de zero. Conte o número de casas em que a vírgula se deslocou e este será o número (positivo ou negativo) do expoente da base 10, que fica multiplicando o número indicado. Num resumo podemos dizer: se a vírgula vierda direita, o expoente será positivo; se vier da esquerda, o expoente fica negativo.
Exemplos:
    1. 50000 = 5 x 104
    2. 0,0005 = 5 x 10-4
    3. 159400 = 1,594 x 105
    4. 0,00265 = 2,65 x 10-3


    Operações com potências de base 10
    I - Adição e subtração:
    NOTA: A adição ou subtração com potências só pode ser realizada quando se tem expontes iguais. Conserva-se a potência indicada e adiciona-se (ou subtrai-se) os valores que antecedem a potência.
    Exemplos:
  1. 9 x 107 3 x 107 = (9-3) x 107 = 6 x 10 7
  2. 2,3 x 10-4 + 1,4 x 10-4 =(2,3+1,4) x 10-4 = 3,7 x 10
    NOTA: Caso a adição (ou subtração) se apresente entre valores que não tem mesmo expoente, é necessário arrumar um (ou mais) números para que os mesmos fiquem com potências iguais.
9 x 105 3 x 107 =0,09 x 107 3 x 107 = 3,09 x 107
ou
9 x 105 3 x 107 =9 x 105 300 x 105 = 309 x 10= 3,09 x 107

    II - Multiplicação:
    Efetua-se a multiplicação entre os números que antecedem a potência e também multiplicam-se as potências da base 10, pelo método simplificado: conserva-se a base e adiciona-se, algebricamente, os expoentes.
    Exemplos:
  1. 9 x 107 3 x 103 = (9x3) x (107x 103) = 27 x 1010 = 2,7 x 1011
  2. 9 x 10-7 3 x 103 = (9x3) x (10-7x 103) = 27 x 10-4 = 2,7 x 10-3

    III - Divisão:
    Efetua-se a divisão entre os números que antecedem a potência e também divide-se as potências da base 10, pelo método simplificado: conserva-se a base e subtraem-se os expoentes.
    Exemplos:
  1. 9 x 107 3 x 103 = (9:3) x (107: 103) = 3 x 104
  2. 9 x 10-7 3 x 103 = (9:3) x (10-7: 103) = 3 x 10(-7-3) = 3 x 10-10

    IV - Potenciação:
    Efetua-se a potência entre os números que antecedem a potência de base 10 e também faz-se a potência da potência de base 10, pelo método simplificado: conserva-se a base e multiplicam-se os expoentes.
    Exemplos:
  1. (9 x 107)2 92 x 10(7x2) = 81 x 1014 = 8,1 x 1015
  2. (3 x 10-4)3 = 33 x 10(-4x3) = 27 x 10-12 = 2,7 x 10-11

    V - Radiciação:
    Extrai-se a raiz do número que antecedem a potência de base 10 e também faz-se o mesmo com a potência de base 10, pelo método simplificado: conserva-se a base e divide-se o expoente do radicando com o índice do radical.


terça-feira, 13 de setembro de 2016

Similaridades nanométricas entre a teia de aranha e a música



Uma teia musical

A teia tecida por uma aranha e a música composta por um artista apresentam similaridades insuspeitas quando olhadas a nível nanométrico. Segundo um estudo feito por pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT), a estrutura básica de ambos os sistemas – um aminoácido no caso da teia e uma onda sonora no da canção – se relaciona de maneira equivalente à sua respectiva função (BioNanoScience, dezembro). Da mesma forma que os tijolos químicos são capazes de conferir leveza e resistênciamecânica aos fios da teia, o padrão repetitivo de notas e acordes cria uma tensão sonora capaz de captar a atenção do ouvinte. O trabalho é um dos exemplos de uma nova metodologia matemática denominada log ontológico (ou olog), que fornece meios abstratos para classificar propriedades gerais de qualquer sistema, como um material, um conceito ou um fenômeno, e realçar relações inerentes entre sua estrutura e sua função. “O abismo aparentemente inacreditável que separa a teia da música não é maior do que o de dois campos distintos da matemática, como a geometria, com seus triângulos e esferas, e a álgebra, com suas variáveis e equações”, diz David Spivak, um dos autores do trabalho e criador da nova metodologia.

domingo, 11 de setembro de 2016

Declaração Universal dos Direitos da Pessoa com Deficiência

Resolução aprovada pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas em 09/12/1975

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A Assembléia Geral Consciente da promessa feita pelos Estados Membros na Carta das Nações Unidas no sentido de desenvolver ação conjunta e separada, em cooperação com a Organização, para promover padrões mais altos de vida, pleno emprego e condições de desenvolvimento e progresso econômico e social, 

- Reafirmando, sua fé nos direitos humanos, nas liberdades fundamentais e nos princípios de paz, de dignidade e valor da pessoa humana e de justiça social proclamada na carta, 

- Recordando os princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos, dos Acordos Internacionais dos Direitos Humanos, da Declaração dos Direitos da Criança e da Declaração dos Direitos das Pessoas Mentalmente Retardadas, bem como os padrões já estabelecidos para o progresso social nas constituições, convenções, recomendações e resoluções da Organização Internacional do Trabalho, da Organização Educacional, Científica e Cultural das Nações Unidas, do Fundo da Criança das Nações Unidas e outras organizações afins. Lembrando também a resolução 1921 (LVIII) de 6 de maio de 1975, do Conselho Econômico e Social, sobre prevenção da deficiência e reabilitação de pessoas deficientes, 

- Enfatizando que a Declaração sobre o Desenvolvimento e Progresso Social proclamou a necessidade de proteger os direitos e assegurar o bem-estar e reabilitação daqueles que estão em desvantagem física ou mental, Tendo em vista a necessidade de prevenir deficiências físicas e mentais e de prestar assistência às pessoas deficientes para que elas possam desenvolver suas habilidades nos mais variados campos de atividades e para promover portanto quanto possível, sua integração na vida normal, 

- Consciente de que determinados países, em seus atual estágio de desenvolvimento, podem, desenvolver apenas limitados esforços para este fim,

- PROCLAMA esta Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes e apela à ação nacional e internacional para assegurar que ela seja utilizada como base comum de referência para a proteção destes direitos: 

1 - O termo "pessoas deficientes" refere-se a qualquer pessoa incapaz de assegurar por si mesma, total ou parcialmente, as necessidades de uma vida individual ou social normal, em decorrência de uma deficiência, congênita ou não, em suas capacidades físicas ou mentais. 

2 - As pessoas deficientes gozarão de todos os diretos estabelecidos a seguir nesta Declaração. Estes direitos serão garantidos a todas as pessoas deficientes sem nenhuma exceção e sem qualquer distinção ou discriminação com base em raça, cor, sexo, língua, religião, opiniões políticas ou outras, origem social ou nacional, estado de saúde, nascimento ou qualquer outra situação que diga respeito ao próprio deficiente ou a sua família. 

3 - As pessoas deficientes têm o direito inerente de respeito por sua dignidade humana. As pessoas deficientes, qualquer que seja a origem, natureza e gravidade de suas deficiências, têm os mesmos direitos fundamentais que seus concidadãos da mesma idade, o que implica, antes de tudo, o direito de desfrutar de uma vida decente, tão normal e plena quanto possível. 

4 - As pessoas deficientes têm os mesmos direitos civis e políticos que outros seres humanos:o parágrafo 7 da Declaração dos Direitos das Pessoas Mentalmente Retardadas (*) aplica-se a qualquer possível limitação ou supressão destes direitos para as pessoas mentalmente deficientes. 

5 - As pessoas deficientes têm direito a medidas que visem capacitá-las a tornarem-se tão autoconfiantes quanto possível. 

6 - As pessoas deficientes têm direito a tratamento médico, psicológico e funcional, incluindo-se aí aparelhos protéticos e ortóticos, à reabilitação médica e social, educação, treinamento vocacional e reabilitação, assistência, aconselhamento, serviços de colocação e outros serviços que lhes possibilitem o máximo desenvolvimento de sua capacidade e habilidades e que acelerem o processo de sua integração social. 

7 - As pessoas deficientes têm direito à segurança econômica e social e a um nível de vida decente e, de acordo com suas capacidades, a obter e manter um emprego ou desenvolver atividades úteis, produtivas e remuneradas e a participar dos sindicatos. 

8 - As pessoas deficientes têm direito de ter suas necessidade especiais levadas em consideração em todos os estágios de planejamento econômico e social. 

9 - As pessoas deficientes têm direito de viver com suas famílias ou com pais adotivos e de participar de todas as atividades sociais, criativas e recreativas. Nenhuma pessoa deficiente será submetida, em sua residência, a tratamento diferencial, além daquele requerido por sua condição ou necessidade de recuperação. Se a permanência de uma pessoa deficiente em um estabelecimento especializado for indispensável, o ambiente e as condições de vida nesse lugar devem ser, tanto quanto possível, próximos da vida normal de pessoas de sua idade. 

10 - As pessoas deficientes deverão ser protegidas contra toda exploração, todos os regulamentos e tratamentos de natureza discriminatória, abusiva ou degradante. 

11 - As pessoas deficientes deverão poder valer-se de assistência legal qualificada quando tal assistência for indispensável para a proteção de suas pessoas e propriedades. Se forem instituídas medidas judiciais contra elas, o procedimento legal aplicado deverá levar em consideração sua condição física e mental. 

12 - As organizações de pessoas deficientes poderão ser consultadas com proveito em todos os assuntos referentes aos direitos de pessoas deficientes. 

13 - As pessoas deficientes, suas famílias e comunidades deverão ser plenamente informadas por todos os meios apropriados, sobre os direitos contidos nesta Declaração. Resolução adotada pela Assembléia Geral da Nações Unidas 9 de dezembro de 1975 Comitê Social Humanitário e Cultural. 

....................................
(*) O parágrafo 7 da Declaração dos Direitos das Pessoas Mentalmente Retardadas estabelece: "Sempre que pessoas mentalmente retardadas forem incapazes devido à gravidade de sua deficiência de exercer todos os seus direitos de um modo significativo ou que se torne necessário restringir ou denegar alguns ou todos estes direitos, o procedimento usado para tal restrição ou denegação de direitos deve conter salvaguardas legais adequadas contra qualquer forma de abuso. Este procedimento deve ser baseado em uma avaliação da capacidade social da pessoa mentalmente retardada, por parte de especialistas e deve ser submetido à revisão periódicas e ao direito de apelo a autoridades superiores". 

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O Templo do Monte e a Unesco

- Artigo de Denis McEoin
1793
O Segundo Templo Judaico, concluído pelo Rei Herodes em 19 a.C., foi destruído pelos romanos em 70 d.C. (retratado à esquerda em uma pintura de Nicolas Poussin de 1626). A atual Mesquita de Al-Aqsa situada no Templo do Monte foi construída no ano 705, ou seja, 73 anos depois da morte de Maomé em 632 e reconstruída diversas vezes após ser destruída por terremotos.
A UNESCO, Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, é conhecida em todo o mundo pelos inúmeros lugares que designou como Patrimônio da Humanidade. Já são mais de mil, distribuídos de forma desigual em muitos países, estando a Itália no topo da lista, seguida pela China.
A categoria de sítios que conta, disparadamente, com o maior número de lugares sagrados encontra-se classificado sob o título de Sítios do Patrimônio Cultural (diferentemente dos Sítios do Patrimônio Natural). Dentro desta categoria a UNESCO realizou muitos diálogos com as comunidades a fim de garantir que as suscetibilidades religiosas fossem levadas em conta e garantidas. A UNESCO se encarregou de tomar inúmeras medidas neste sentido.
Em 2010, a organização realizou um seminário sobre "O papel das Comunidades Religiosas na Gestão das Propriedades do Patrimônio Mundial."
"O objetivo principal do seminário era o de explorar formas de estabelecer um diálogo entre todas as partes interessadas e explorar maneiras possíveis de incentivar e gerar a compreensão mútua e a colaboração entre elas no tocante à proteção de propriedades religiosas quanto ao Patrimônio da Humanidade."
A noção de diálogo neste contexto tinha o claro objetivo de evitar decisões unilaterais de uma nação ou comunidade quanto à reivindicação de posse exclusiva de um lugar sagrado.
Reivindicações pretensas ou verdadeiras quanto à posse de diversos lugares sagrados não são incomuns. A coleção de ensaios intitulada Coreografias de Sítios Sagrados Compartilhados: Religião, Política e Solução de Conflitos, examina essas controvérsias sobre lugares sagrados compartilhados na Turquia, nos Bálcãs, Palestina/Israel, Chipre e Argélia, apresentando análises robustas de como as comunidades se altercam ou trabalham para se conciliarem em relação à disposição de compartilhar santuários e demais patrimônios. Às vezes as pessoas apelam para a pancadaria por causa desses sítios e outras vezes uma religião pode causar imenso sofrimento aos seguidores de outra, como aconteceu em 1988 quando freiras carmelitas erigiram uma cruz de 8 metros de altura em frente ao campo de extermínio de Auschwitz II (Birkenau) em homenagem a uma missa papal realizada em 1979.
Um exemplo mais conhecido de uma polêmica não resolvida é o conflito sobre a mesquita Babri Masjid em Ayodhya na Índia, construída inicialmente entre 1528 e 1529 sob as ordens de Babur, o primeiro dos imperadores mongóis. Segundo relatos hindus, os construtores mongóis destruíram um templo no lugar do nascimento da divindade Rama a fim de construir a mesquita - alegação negada por muitos muçulmanos.[1] A importância do sítio está clara a partir de um texto hindu que declara que Ayodhya é um dos sete lugares sagrados onde pode ser obtida a liberdade derradeira do ciclo de morte e renascimento.
Estas reivindicações conflitantes foram fatidicamente resolvidas quando uma turba de extremistas hindus destruiu a mesquita em 1992 já com o planejamento de construir um novo templo no local. A destruição tem sido usada como justificativa para ataques terroristas de grupos muçulmanos radicais.[2] Os massacres em Wandhama (1998) e a peregrinação de Amarnath (2000) são atribuídos à demolição. Distúrbios comunais ocorreram em Nova Delhi, Bombaim e em outros lugares, bem como muitos casos de esfaqueamento, incêndios criminosos e ataques contra residências particulares e edifícios governamentais.[3]
A bem da verdade invasores muçulmanos destruíram ou alteraram milhares de templos "idolátricos" e lugares sagrados na Índia, bem como fizeram em outros lugares em menor escala, da mesma maneira que o Estado Islâmico está fazendo há vários anos no Iraque e na Síria moderna. Não se trata simplesmente do tipo de destruição normalmente associado a guerras, invasões ou altercações civis. Para os muçulmanos ela tem um fundamento teológico. O Islã, da maneira como está desde a morte do profeta Maomé em 632, baseia-se em três coisas: a crença de que existe um Deus sem parceiros ou colaboradores; a crença de que Maomé é o mensageiro daquele Deus; e a crença de que o Islã é a definitiva e a maior religião revelada para a humanidade, autorizada por Deus a destruir todas as outras religiões e seus artefatos:
"Ele (Alá) foi Quem enviou Seu Mensageiro com a Orientação e a verdadeira religião para fazê-la prevalecer sobre todas as outras, embora isso desgostasse os idólatras" (Alcorão 09:33; 61:9).
É esta última crença que tem, por mais de 1400 anos, incutido um profundo sentimento de supremacia dentro do mundo muçulmano.
Uma vez que muitos muçulmanos acreditam que o Islã é a revelação final e que Maomé é o derradeiro profeta, eles acreditam que não possam viver em pé de igualdade com os seguidores de outras religiões. Judeus e cristãos podem viver em um estado islâmico desde que se submetam a profundas humilhações e rebaixamentos e pagamentos em dinheiro para proteção (o imposto jizya). Igrejas e sinagogas não podem ser reparadas e se desmoronarem não poderão ser reconstruídas. O Islã está acima de tudo.
A última doutrina citada acima é usada repetidamente nas obras de ideólogos salafistas modernos como por exemplo o paquistanês Abu'l-A'la Mawdudi e o egípcio Sayyid Qutb. Abaixo uma declaração típica de Qutb, extraída de sua publicação mais conhecida Ma'alim fi'l-tariq("Milestones"):
"O Islã, portanto, é o único modo de vida divino que traz à tona as características humanas mais nobres, desenvolvendo e utilizando-as para a construção da sociedade humana. O Islã permanece singular nesse aspecto até os dias de hoje. Aqueles que se desviarem deste sistema e quiserem outro, seja com base no nacionalismo, cor e raça, luta de classes ou teorias corruptas da mesma natureza, são verdadeiramente inimigos da humanidade!" [4]
Clique aqui para visualizar um comentário recente de um escritor salafista moderno:
"este domínio mundial do Islã, que foi prometido por Alá, não significa necessariamente que absolutamente todos na terra se tornarão muçulmanos. Quando dizemos que o Islã irá dominar o mundo, queremos dizer como sistema político, como o Mensageiro Maomé profetizou que a autoridade na terra pertencerá aos muçulmanos, ou seja, os crentes estarão no poder e a Sharee'ah (Sharia) do Islã será implementada em todos os cantos da terra".
Segundo a lei islâmica da jihad, qualquer território que tenha alguma vez sido capturado pelo Islã deve permanecer sob controle integral e inviolável das autoridades muçulmanas. [5] Em outras palavras, até países inteiros como Espanha, Portugal, Índia, Grécia ou as nações dos Bálcãs que outrora tinham sido colônias governadas pelos otomanos, devem ser recuperados pelo Islã, seja através da reconquista seja através da corrente "jihad cultural."
É através da imigração em massa, separatismo, introdução gradual da lei islâmica e a criação de guetos que tantos países da Europa se tornaram gradativamente vítimas de um Islã mais determinado. Mas um território em especial continua sob a ameaça da ocupação violenta: o Estado de Israel.
Embora existam movimentos irredentistas e revanchistas em muitos países muçulmanos, esforços para se apoderar de Israel têm servido para desencadear e sustentar o conflito físico mais duradouro e mais difícil de se lidar da história moderna. Demandas e contra demandas, ataques e contra-ataques, guerras e respostas defensivas que ocorrem em Israel estão presentes na mídia todos os dias.
A disputa não é essencialmente política. Após a Primeira Guerra Mundial foi criado um sistema de direito internacional e este sistema acordado mutuamente foi ampliado após a Segunda Guerra Mundial, passando a abranger todos os países que faziam parte das Nações Unidas. Israel foi criado, não para desalojar os habitantes árabes das terras que os britânicos chamavam de Palestina e sim para proporcionar uma pátria aos judeus ao lado de um estado árabe. Mas todos os países árabes recusaram esta proposta. Os palestinos de hoje ainda se recusam a aceitar um estado próprio, embora clamem em altos brados que desejam tal estado.
O âmago da motivação está na rejeição determinada pela religião do estado-nação,[6] somado com a convicção de que a Terra Santa é um território islâmico que jamais poderá ser concedido aos judeus.
Esta negação do direito internacional e da ética permite que muitos muçulmanos aleguem que a cidade de Jerusalém é uma cidade islâmica, uma cidade que jamais poderá ser considerada a capital de um estado judeu, um lugar sagrado que tem um significado importante para os muçulmanos e somente para os muçulmanos.
Não é necessário ser um historiador para saber que Jerusalém era inicial e originalmente uma cidade judaica com posteriores ligações cristãs e mais tarde ainda com fracas ligações islâmicas. Mais do que isso, é a cidade mais sagrada do mundo para os judeus, nela se encontra o lugar mais sagrado da religião judaica, o Templo do Monte -- lugar onde foram construídos, não apenas um, mas dois templos judaicos.
Os judeus rezavam naquele lugar até os templos serem destruídos, primeiro pelo monarca babilônico Nabucodonosor (em 586 a.C.) e depois novamente pelos romanos em 70 d.C.. Os judeus sempre rezam voltados para o Templo do Monte em suas orações.
Os muçulmanos também rezaram, por vários anos, voltados para o Templo do Monte, isso enquanto Maomé e seu pequeno grupo de seguidores viviam em Meca. Eles continuaram rezando dessa maneira por vários meses após emigrarem para a cidade oásica de Yathrib (hoje Medina) em 622. Inicialmente eles rezaram voltados para Jerusalém porque no começo Maomé era um grande admirador dos judeus, de quem ele aprendeu a maioria das coisas que sabia. Mas em Medina, se deu conta que ele não se dava tão bem com os judeus da cidade, que se recusaram a se converter à sua nova religião.
Dezesseis ou dezessete meses após a emigração, Maomé recebeu a revelação segundo a qual os Crentes teriam que virar cerca de 180º, para que dessa maneira ficassem voltados para a cidade de onde veio a maioria deles: Meca. No meio da reza a congregação inteira deu as costas para Jerusalém. Eles não tinham mais o menor interesse pela cidade sagrada dos judeus. [7]
Impossível o Alcorão ser mais explícito quanto a esta matéria. Maomé não segue a mesma direção da reza usada pelos judeus. A Kaaba (estrutura em forma de cubo reverenciada pelos muçulmanos) de Meca apagou toda a imaginação em relação a Jerusalém e ao Templo do Monte. A esta altura não havia em Jerusalém nenhuma rocha ou pedra ou árvore ou construção islâmica relacionada a algo islâmico.
Todavia, para os muçulmanos de hoje, a verdade é exatamente o contrário. Assim sendo não há nada em Jerusalém que pertença aos judeus e cada milímetro dela -- em especial o Templo do Monte e o Muro das Lamentações -- é e sempre foi islâmico. Jerusalém é vista como uma das cidades mais sagradas para os muçulmanos, depois de Meca e Medina.
A demanda muçulmana por Jerusalém é tênue para dizer o mínimo. O verso corânico (17:1) fala de uma viagem noturna feita por Maomé da Mesquita Sagrada (em Meca) para a Mesquita Distante (al-masjid al-aqsa). Comentaristas depois relacionaram esta Mesquita Distante com Jerusalém. Mas não havia nenhuma mesquita e nenhum muçulmano em Jerusalém naquela época - a bem da verdade, também não havia muitos muçulmanos nem na Arábia. A atual Mesquita de Al-Aqsa situada no Templo do Monte foi construída no ano 705, ou seja, 73 anos depois da morte de Maomé em 632 e reconstruída diversas vezes após ser destruída por terremotos. No século XX, ninguém dava importância a ela. Um filme sobre a mesquita realizado em 1954 mostra seu grave estado de deterioração. Sem a menor sombra de dúvida ela não foi nem cuidada nem muito valorizada pela comunidade muçulmana.
E não para por aí. Durante séculos, escritores muçulmanos (isso para não falar de arqueólogos e historiadores judeus e cristãos) concordaram que o Kotel, o Muro Ocidental ou das "Lamentações", era a parte remanescente do Segundo Templo Judaico, o templo construído por Herodes e visitado por Jesus. Ainda em 1924, o Supremo Conselho Muçulmano no período do Mandato Britânico da Palestina publicouum panfleto intitulado Guia Rápido para o al-Haram al-Sharif – Guia do Templo do Monte. Este documento confirma o caráter judaico do sítio: na quarta página, o esboço histórico do Monte ressalta:
"O sítio é um dos mais antigos do mundo. Sua santificação data dos tempos mais remotos. Sua identificação com o sítio do Templo de Salomão é inquestionável. Este, também é o lugar, de acordo com a crença universal, segundo a qual Davi edificou ali ao Senhor um altar, e ofereceu holocaustos, e ofertas pacíficas (2 Samuel 24:25) "
De acordo com a Jewish Virtual Library:
Os primeiros muçulmanos consideravam a construção e a destruição do Templo de Salomão como um acontecimento histórico e religioso de extrema importância e os relatos sobre o Templo são apresentados por muitos dos mais antigos historiadores muçulmanos e geógrafos (incluindo Ibn Qutayba, Ibn al-Faqih, Mas'udi, Muhallabi, e Biruni). Contos fantásticos sobre a construção do Templo por Salomão também aparecem no Qisas al-anbiya' (Contos dos Profetas), coletâneas medievais de lendas muçulmanas sobre os profetas pré-islâmicos. Conforme salientou o historiador Rashid Khalidi em 1998 (em nota de rodapé), embora não haja "provas científicas" da existência do Templo de Salomão, "todos os crentes de qualquer uma das religiões abraâmicas forçosamente devem acreditar que o Templo existiu."
Já faz algum tempo, no entanto, que muçulmanos e instituições muçulmanas começaram a alegar que o Monte nada tem a ver um Templo Judaico, que tal templo jamais existiu e que o Muro das Lamentações é na verdade o muro no qual Maomé amarrou seu lendário cavalo-alado Buraq. Com extrema audácia, o Xeque Tayseer Rajab Tamimi, importante líder religioso na Autoridade Palestina, declarou em 2009: "Jerusalém é uma cidade árabe e islâmica e sempre foi." Tamimi alegou que todos os trabalhos de escavação conduzidos por Israel depois de 1967 "não foram capazes de provar que os judeus tinham uma história ou presença em Jerusalém ou que seu ostensivo Templo tivesse existido." Ele chamou o primeiro-ministro Benjamim Netanyahu e "todos os rabinos e organizações extremistas" de mentirosos, por afirmarem que Jerusalém era uma cidade judaica. Tamimi acusou Israel de distorcer os fatos e de forjar a história "com o objetivo de apagar o caráter árabe e islâmico de Jerusalém".
Não há razão para que os muçulmanos não venerem o lugar, seja de um lugar distante ou para aqueles que residem na própria Jerusalém. Dessa maneira, o Templo do Monte seria mais um sítio religioso com ligações a mais de uma religião -- neste caso com -- o judaísmo, cristianismo e o Islã. Lamentavelmente o senso de domínio sobre todas as outras religiões, conforme descrito acima, significa que os muçulmanos não estão tendo nada disso.
Para eles o Templo do Monte e seus arredores são muçulmanos e ponto final. Na era moderna trata-se de um desdobramento da visão mais ampla de que todo o Estado de Israel é território islâmico.
O conceito islâmico de supremacia se apropriou da UNESCO em contradição direta à sua aceitação de sítios multirreligiosos.
Em outubro de 2015, seis Estados árabes, em nome da Autoridade Palestina (AP) e de outros, propuseram à UNESCO que ela mudasse a denominação do lugar, transformando-o de um lugar sagrado dos judeus para um lugar sagrado dos muçulmanos, como parte da Mesquita de al-Aqsa. A votação foi marcada para 20 de outubro, mas foi adiada após um veemente protesto da Diretora-geral da UNESCO Irina Bokova, que ressaltou"deplorar" a proposta.
Mas a votação ainda pode passar a favor da AP e de seus simpatizantes. Um dia mais tarde, foi anunciado que a UNESCO tinha votado e aprovado a denominação de outros dois importantes lugares sagrados judaicos como sendo muçulmanos -- o "Túmulo dos Patriarcas" em Hebron e o Túmulo de Raquel, perto de Belém.
O "Túmulo dos Patriarcas" segundo a tradição, é onde os corpos de Abraão e Sara, Isaac e Rebeca e Jacó e Léa estão enterrados. É o mais antigo dos lugares sagrados dos judeus, segundo em importância perdendo apenas para o Monte onde os dois templos foram construídos. De agora em diante serão conhecidos como al-Haram al-Ibrahimi, o Santuário de Abraão, assim chamado porque Abraão é descrito no Alcorão como o primeiro muçulmano. Estapafurdiamente isso já é o suficiente para torná-lo um sítio "muçulmano".
O Túmulo de Raquel, situado na direção da entrada norte de Belém, é considerado como o lugar de descanso da Matriarca Raquel, esposa de Jacó e mãe de José e Benjamim. Considerado o terceiro lugar mais sagrado dos judeus e um lugar de peregrinação para os judeus desde os tempos antigos, tem sido e é sagrado tanto para os judeus quanto para os cristãos durante séculos. Desde que o túmulo caiu nas mãos dos muçulmanos no século VII, também tem sido venerado pelos muçulmanos, porque Jacó e José são figuras corânicas, apesar da própria Raquel não ser chamada pelo seu nome no livro.
Autoridades e líderes muçulmanos como o chefe do Movimento Islâmico do Norte, (um movimento radical)Shaykh Raed Salah, não querem um bocadinho aqui e outro bocadinho ali. Eles querem que toda a Jerusalém seja consagrada internacionalmente como uma cidade totalmente muçulmana e, a exemplo do que aconteceu quando a Jordânia ocupou a cidade, expulsar os judeus e destruir todas as sinagogas.
As tentativas de negar toda e qualquer presença judaica antiga e contínua em Jerusalém, dizer que nunca houve o Primeiro e muito menos o Segundo Templo e que somente os muçulmanos têm direito à cidade inteira, seus santuários e monumentos históricos, atingiram proporções insanas. As expressões mais extremadas desta gama de reivindicações que nada têm a ver com a história, afirmações supremacistas e conspirações, fazem parte dos muitos discursos e comentários do acima mencionado Shaykh Raed Salah. Clique aqui para acessar trechos de um discurso por ele proferido em um comício em 1999:
"Nós diremos abertamente à sociedade judaica, vocês não tem direito nem a uma única pedra da abençoada Mesquita de Al-Aksa. Vocês não tem direito nem a uma minúscula partícula da abençoada Mesquita de Al-Aksa. Portanto, vamos dizer abertamente que o muro ocidental da abençoada Al-Aksa faz parte da abençoada Al-Aksa. Ela jamais poderá ser um pequeno Muro das Lamentações. Jamais poderá pode ser um grande Muro das Lamentações... Vamos dizer abertamente à liderança política e religiosa de Israel: a demanda de manter a abençoada Al-Aksa sob a soberania israelense é também uma declaração de guerra ao mundo islâmico. "
Salah está longe de estar sozinho. O atual dirigente do Supremo Conselho Muçulmano Ekrima Sabri, não mediu esforços para invalidar as reivindicações judaicas sobre aquela área. Ele afirma que o Templo de Salomão é uma "alegação não comprovada" -- algo que os judeus inventaram a partir do "ódio e da inveja." Ele afirma que o Muro das Lamentações também, é "uma propriedade religiosa muçulmana" sobre a qual os judeus "não têm nenhuma relação."
Em uma declaração recente, o presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas salientou: "a Al-Aqsa (Mesquita) é nossa... e eles (os judeus) não têm o direito de profanarem a Mesquita com seus pés imundos."
"O embaixador Shama Hohen (Carmel Shama Hacohen, embaixador israelense para a UNESCO) perguntou ao representante palestino Mounir Anastas porque os palestinos não estão dispostos a reconhecer o direito dos judeus ao Templo do Monte e incluir o termo Templo do Monte na resolução, juntamente com o termo árabe Haram al-Sharif. Anastas respondeu... que se os palestinos reconhecessem o Templo do Monte, logo o presidente palestino Mahmoud Abbas e o Rei Abdullah da Jordânia se tornariam o alvo número um do ISIS."
É realmente a isso que tudo se resume? O Estado Islâmico governa a comunidade internacional? Incluindo a UNESCO?
Em 15 de abril deste ano, o Comitê Executivo da Comissão de Relações Externas e de Planejamento da UNESCO se reuniu em sua 199ª sessão. A resolução anterior sobre o Templo do Monte foi apresentada pela Argélia, Egito, Líbano, Marrocos, Omã, Catar e Sudão -- todos são membros da Organização de Cooperação Islâmica. Em seguida o voto foi passado para os 21 membros do Comitê do Patrimônio Mundial durante sua 40ª sessão em Istambul, sessão esta que tinha sido programada para ser realizada a partir de 10 de julho até 20 de julho.
Por mero acaso, a tentativa de golpe militar do mês de julho na Turquia impediu a realização do evento e a votação foi adiada para o outono. A nova investida pode ter como sustentação uma proposta de resolução criada pela União Europeia, que é na verdade apenas mais uma negação da ligação histórica dos judeus com o Templo do Monte. Mas considerando a unilateralidade da resolução, onde se encaixa o acima declarado compromisso da UNESCO de promover "um diálogo entre todas as partes interessadas"?
Transformar o Templo do Monte, o Muro das Lamentações, o Túmulo de Raquel, o Túmulo dos Patriarcas e outros sítios em lugares sagrados exclusivamente muçulmanos está diretamente ligado ao crescimento da islamização da era moderna. Ao destruir igrejas, santuários, túmulos, sítios inteiros da antiguidade considerados idolátricos e até mesquitas consideradas heréticas, o Estado Islâmico pretende apagar todos os vestígios do que é chamado de era de Jahiliyya, ou seja a "Idade da Ignorância" que prendia o mundo em suas garras antes do advento do Islã.
O mundo fica indignado ao ver as pedras de Palmyra se transformarem em escombros e outros grandes monumentos da civilização humana virarem pó. Mas este mesmo mundo silencia quando os árabes palestinos e seus defensores islamizam tudo ao questionarem a indubitável presença do povo judeu na Terra Santa.
Notas:
[1] A pesquisa arqueológica moderna mostra que de fato havia um templo anterior naquela área, melhor dizendo, um grande complexo Hindu.
[2] Consulte "Attack[s] on Hindus post Babri demolition," ShankhNaad, 13 de abril de 2015.
[3] Para obter maiores detalhes, consulte ibidem.
[4] Sayyid Qutb, Milestones, Nova Delhi, 2002, pág. 51.
[5] Consulte por exemplo: Amikam Nachmani, Europe and Its Muslim Minorities: Aspects of Conflict, Attempts at Accord, Sussex Academic Press, 2010, pág. 106.
[6] Um conceito europeu, contrário ao projeto imperial islâmico umma que abrange tudo.
[7] Consulte Alcorão 2: 143 a 146.

Denis MacEoin é doutor em Filosofia, estudou e lecionou sobre o Islã em diversas universidades e atualmente está compondo um trabalho literário sobre questões religiosas. É ilustre colaborador sênior do Gatestone Institute, em cujo site o presente artigo foi publicado.

(Fonte: MSM)